quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Reflexão sobre o Mercado

O mercado é geralmente abordado em trabalhos acadêmicos como uma esfera uníssona, idealizado como o espaço de trocas atomizadas e meramente interessado em negociatas lucrativas. Esta pesquisa pretende abordar o mercado como um objeto multifacetado que demanda um olhar à história e à conjuntura que o engendra. Se a racionalidade do mercado é de outra ordem da racionalidade teórica reflexiva, e se os atores, os métodos e os fins mesmos de uma e de outra diferem, somente o enfrentamento da questão permitirá a elaboração de hipóteses sobre os limites da diferença. Talvez o maior desafio metodológico de um trabalho que tem a empresa Vale e seu discurso e prática da sustentabilidade por objeto seja o de testar a possibilidade do uso de paradigmas e instrumental mercadológico para pensá-la teoricamente, comprovando que não se tratam de raciocínios tão distintos que não possam ser acionados conjuntamente para efeito de uma análise.

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Se olharmos de fora, o setor minerador e, especialmente, a Vale não podem ser sintetizados em uma única representação mental, seja imagética, seja discursiva, e talvez apenas a imagem da mina seja a mais mnemônica, posto que não há uma representação mais constante como, por exemplo, a tem a Petrobrás e suas recorrentes imagens das plataformas petrolíferas em alto mar ou seu majestoso prédio-sede no centro do Rio de Janeiro. A Vale, ao contrário, parece não querer divulgar ou cristalizar uma imagem da sede, do núcleo urbano ou da mina de Carajás pois é como se um dos paradigmas de sua comunicação seja justamente a sua pulverização imagética. Essa intencionalidade se deve, entre outros motivos, sobretudo às tensas relações que a companhia mantém, sobretudo, com os funcionários e grupos indígenas.

Por trás do que se “ouve falar” e das polêmicas que sempre envolvem a companhia há um setor produtivo, cuja atuação cotidiana obedece a critérios definidos historicamente, a ser analisado em seus determinantes econômicos e técnicos, seus discursos e suas estratégias, uma vez que o cenário urbano de Parauapebas resulta das disputas de sentido travadas pelos e nos discursos dos atores envolvidos nos processos engendrados pela relação entre a Vale e os stakeholders, mais especificamente no que tange os projetos de sustentabilidade, no qual há uma luta incessante pela hegemonia dos espaços de poder.

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Pretende-se nesta pesquisa, propositadamente, enfatizar as “falas” dos atores que, em suas convergências e conflitos, desconstroem a idéia de um mercado como uma esfera “uníssona” ou transcendente. Ao mesmo tempo em que também visa a expor – sempre no sentido da crítica construtiva – as contradições e disputas de poder que acontecem na própria companhia pois dentro de uma empresa da dimensão da Vale, que lida com montantes expressivos de volume financeiro e recursos humanos, as divergências e disputas são bem maiores do que se tem notícia seja via grande imprensa, seja via trabalhos acadêmicos.

E como este trabalho é tributário da área da comunicação, não trataremos da relação da Vale com a população ou o Estado em Parauapebas, mas especificamente entre a companhia e o que ela nomeia de stakeholders (públicos envolvidos, partes interessadas), que são grupos restritos representativos dos grupos maiores nomeados de Acionistas, Colaboradores, Comunidades Indígenas, Comunidades do entorno, Poder Público, Mídia, Fornecedores. E dentre todos esses, focaremos mais especificamente os stakeholders abrangidos pelos seguinte projetos de sustentabilidade: Vale Alfabetizar, Escola de futebol, Escola que Vale e Estação de Conhecimento APA do Igarapé Gelado.

Retomando a questão inicial, caberia adaptá-la para: o que permeia essa abertura da empresa para o diálogo como os stakeholders? Parte-se então do discurso da companhia, impresso principalmente no seu relatório de sustentabilidade 2007 para o trabalho empírico de visitar e acompanhar o momento mesmo de atuação desses projetos para mapear a opinião de todos nele envolvidos e perceber como se desenvolve na prática as ações ditas “sustentáveis” da Vale em Paruapebas.

Entender esse espaço que a companhia abre para os seus stakeholders como portais de entrada para o implícito, para o que estrutura e produz essa mediação, a começar pelas relações, às vezes sutis, às vezes tensas, existentes entre os diferentes representante da empresa, do poder público e das comunidades é um de nossos mais caros objetivos.

A paisagem urbana de Parauapebas não é produto simplesmente de elaborações ou tramas maquiavélicas de capitalistas insensíveis que visam apenas ao lucro e à exploração da população. Tipos de capitalismo e de capitalistas e estratégias de investimento são fatores ligados à formação e à transformação das redes urbanas e dos espaços econômicos da cidade. Por trás delas – pelo menos nas economias de tipo liberal – encontram-se os agentes reais, elites mais ou menos enraizadas, detentoras do capital, do conhecimento ou capazes de inovações técnicas. É na estrutura social das cidades, mais do que na soma das suas funções, que se deveria procurar a base da organização territorial, através das mudanças históricas, desde a acumulação de renda ligada à posse da terra até à constituição dos territórios de sistemas simbólicos, como é o caso das intervenções da Vale.

Os processos que o produzem geram um espaço controverso de interesses dos stakeholders, ou seja, de todos os implicados no processo. Uma rede infinita de conflitos convive diariamente com a pressão pela sobrevivência, dada a imprevisibilidade dos fatores que norteiam a atividade. É bom lembrar que o lançamento de um projeto de sustentabilidade é sempre uma incógnita, sujeita a sucessos e fracassos. Ao mesmo tempo, é preciso pensar que o sujeito envolvido nesses projetos sociais da empresa não é mais um mero número estatístico de uma massa inqualificável e amorfa, mas um sujeito com capacidade crítica para dar outros significados aos estímulos simbólicos a ele proposto, a partir de seu uso e de sua experiência cotidiana.

domingo, 23 de agosto de 2009

Entre o Ideológico e o Político - Parte II

Dando sequência ao pensamento do primeiro post sobre as diferenças entre o ídeológico e o político, voltemos o foco para a ideologia que também persiste na célula central do capitalismo, que são as empresas. Quando Marx cunhou seu pensamento sobre ideologia, à época ele se referia justamente ao conservadorismo das burguesias industriais, a direita liberal que via no mercado o supremo regulador da economia. Hoje, é corrente no discurso empresarial uma certa repulsa a tudo o que eles consideram "ideológico", termo associado aos movimentos ditos de esquerda, sobretudo os movimentos sociais com posturas mais ativistas como o MST - Movimento dos Sem Terra. Ora, ao deslocar o "ideológico" apenas para organizações que são contrárias em alguma medida a forma de atuação das empresas, estas incorporam o discurso da eficiência técnica como parâmetro para suas decisões. Mas isso apenas acontece no nível discursivo, pois o que as empresas e os defensores da economia de mercado (políticos, ONGs, líderes de opinião, religiosos etc.) dissimulam é que, no fundo, a governança e o poder decisório está sempre à mercê dos interesses e objetivos nem sempre tão transparentes das corporações ou dos setores que atuam globalmente. Ou seja, essa crença na técnica com sua feição imparcial, detentora do conhecimento puro, capaz de distinguir cientificamente o que é melhor para um coletivo, também é uma ideologia pois brota da crença de que a administração ou a gestão dos desafios humanos (muitos, no plural) devem ficar a cargo de especialistas (poucos), que são investidos de legitimidade pelo discurso competente da ciência. para criar modelos técnicos que devem ser seguidos disciplinarmente por todos. Mas o mercado é um mar bem mais revolto do que outras dimensões sociais. Aqui há a concorrência, há uma corrida constante pela atualização tecnológica e há o consumidor: peça surpresa e cada vez mais importante nesse processo. Mesmo em setores cartelizados, onde o consumidor não adquiriu ainda os direitos mínimos necessários para uma relação comercial justa (como é o caso do setor de telefonia celular), o consumidor exige investimentos e pode provocar muitas dores de cabeça as empresas. A exigência por resultdos e produtividade torna o mercado um espaço onde a eficiência é e será sempre cobrada, agora ainda mais com a exigência da sustentabilidade das atividades. Hoje vista como um processo técnico na maioria das empresas, trata-se de um desafio próximo perceber se a sustentabilidade terá um viés mais ideológico ou político nas corporações. Se ela for encarcerada em preceitos técnicos, reduzida a um discurso fechado de propaganda, e cujo não cumprimento pode culpabilizar empregados, ela tenderá ao ideológico. Mas se as empresas forem capazes de realmente abrir o espaço para a discussão, onde argumentos claros visem a persuasão de todos os envolvidos no processo, os chamados stakholders, entendido como espaço de diálogo/conflito, espaço vivo de experiências, e a empresa tiver a ombridade de escutar e incorporar as críticas e sugestões em suas atividades, aí sim teremos uma aborgdagem política da sustentabilidade. Por enquanto, o que temos é ainda um processo embrionário nas empresas de de aprendizado. São modelos de gestão, hierarquias, hábitos e modos cristalizados de pensamento empresarial que estão sendo sacudidos por essa onda sustentável, hoje presente fortemente nas grandes empresas. E é delas que vêm exemplos significativos, pois como há ONGs e ONGs, Movimentos Sociais e Movimentos Sociais, há empresas e empresas, e a necessidade do bom exemplo, como Natura, Banco Real e Burti no caso do mercado brasileiro. O próprio Wal Mart, corporação global, sempre demonizado como a empresa mais representtvia da exploração capitalista, está tentando imprimir mudanças profundas em seus dogmas de gestão, no sentido de se tornar uma empresa "verde". E aqui é uma outra armadilha da sustentabilidade, a da balança que pesa apenas o ambiental, em nada ou pouco se preocupando com o social, muitas vezes confundindo-o com filantropia. E na Amazônia esse quadro fca ainda mais complexo, porque há mais riqueza, iteresses e visibilidade em jogo. De qualquer forma, é fato que a crença na hegemonia da técnica, que se caracteriza pelos procedimentos homogêneos de gestão (um exemplo disso é a área de Recrusos Humanos ou Gestão de Pessoas) é extremamente perigoso porque também é ideológico e não permite o pluralimso, o questionamento, a idéia contrária, em nome da imperiosa e lucrativa uniformização dos processos produtivos.

sábado, 15 de agosto de 2009

Entre o Ideológico e o Político

Que a configuração de forças que compõem o poder na Amazõnia é desigual, isso é fato. E que essa assimeria gera injustiças enormes e (des)conhecidas, também. As vias tradicionais de resistência às diretrizes extremamente excludentes do sistema capitalista de produção, legitimado ou não, é composta por todos os movimentos de resistência organizados sob forma de ONGs, movimentos, cooperativas, enfim todos que defendem causas indígenas, feministas, de saúde, segurança, educação e meio ambiente, geralmente com apoio das instituições religiosas, educativas, partidárias etc. Embora imenso em diversidade de causas, o que há em comum entre todos esses movimentos é a ideologia anti-capitalista, ou pensamento de esquerda, eufemismo nomenclatural. No jogo de forças que hoje é jogado na Amazônia, é possivel dizer que os movimentos que partilham de tal ideologia tem presença e atuação ascendentes também pelo apoio que têm recebido do poder judiciário, sobretudo do Ministério Público.

Percebo nesse caminho, algumas semelhanças com a ascensão do PT ao Poder. Partido dominado inicialmente pela ideologia socialista mas que, ao chegar ao poder, teve boa parte de seu quadro seduzido pelo pragmatismo político, o que têm gerado dissidências e muitas críticas. Atualmente, surgem movimentos ainda mais à esquerda (portanto, ainda mais anti-capitalistas) do que eram os ideários do PT pré-ascendência à presidência. E essa radicalização tem gerado conflitos violentos e que tendem a se agravar na região. Reconheço a legitimidade e a necessidade desses movimentos que se expõem, lutam e cobram mudanças, mas como a perspectiva reivindicatória é sempre de curto prazo, me pergunto onde tudo isso pode dar. Que é preciso resistir, sem dúvida. Que não é possivel mais repetir a história de irmã Doroty, sem dúvida. Que precisamos lutar pelos direitos humanos, é óbvio. Mas a posição que aniquila o outro, que o reduz ao estereótipo do inimigo, parte do princípio que o lado daqui tem toda razão em seus questionamentos e reivindicações e o lado de lá não tem nada, só más intenções. E essa postura é ideológica, entendida como um conjunto impermeável de idéias que se cristalizam nos discursos de um determinado grupo social, que mesmo na luta em prol da causa mais justa, inviabiliza a realização dele, justamente porque ideal, aqui, no mundo real dos homens e das instituições, com suas qualidades e defeitos. Estas, com seus históricos mecanismos de corrupção, cooptam o mais bem intencionado dos gestores públicos, que se vêem entre a ineficácia viciada da máquina governamental, e a pressão de grupos oposicionistas. E entre atender às demandas públicas, e encher o próprio bolso, o sujeito olha tudo o que ele acreditava se diluir em debates inóspitos e pensa que é melhor salvar o dele. E penso também que algumas pessoas que tanto lutam pelas causas ditas "sociais", quando assumem o poder, são os mais refratários à crítica e deixam escapar uma veia autoritária preocupante (como é o caso de alguns gestores do atual governo Ana Júlia).

Defendemos a política como o espaço onde todas as questões devem ser debatidas e deliberadas democraticamente e não "administradas" por instâncias superiores. Ou seja, para se construir uma real esfera pública, onde a política possa ser verdadeiramente exercitada, será necessário mudar a percepção dos grupos que são tão importantes porque defendem os direitos mais legitimos. E aqui abro uma fenda nesses grupos, pois entendo que os índios, ribeirinhos e populações vulneráveis lutam por sua sobrevivência, pois estão diretamente ameaçados pelos processos agressivos do capitalismo, mas e os outros: intelectuais, ativistas, advogados, profissionais liberais, enfim, os mediadores que emprestam sua voz a causa alheia, que fazem? É legitimo o que fazem? Em parte. Quando estão ali para defender os mais vulneráveis, dando maior legitimidade aos movimentos pois são eles que ampliam o eco da causa, ok, mas quando o querem abrigá-la sob um guarda-chuva ideológico qualquer, aí está o perigo. O perigo que abole a pluralidade, que elimina o outro, que não percebe que, de alguma forma, o processo não é meramente dialético, mas complexo, pois os problemas são sistêmicos e suas peças são interdependentes, hoje está muito presente na Amazônia. Então, simplesmente bradar Fora Capitalismo ou Fora Vale pode parecer um grito oco de jovens manifestantes estudantis, mas esse discurso é sedutor porque mobiliza, cria o inimigo objetivo, gerando ódio e atos violentos. E como todo discurso precisa de súditos, é mais sedutor dizer às pessoas que elas devem adotar esta ou aquela causa, do que convocar todos os envolvidos no problema para pensar porque ele surgiu e como resolvê-lo. Entendendo que não haverá soluções definititvas mas sempre rearranjos em função das decisões negociadas pelos grupos. O maior perigo do ideológico é que, ao ignorar o real, reduzindo-o ao horizonte do possivel, ele contribui tanto ou mais do que as próprias forças capitalistas para a grave situação da Amazônia atual. Imaginemos, hipoteticamente, uma mesa onde estivessem sentados todos juntos: indígenas, Vale, governos, trabalhadores, feministas, mídia, ribeirinhos, movimentos sociais, ONGs e sociedade civil; desse encontro poderia surgir uma potência tão mais revolucionária do que qualquer chavão marxista porque ainda não inventaram nada melhor para fazer emergir a verdade do que um homem olhar no olho do outro. Um fórum em que todos estivessem em pé de igualdade, ao expor suas demandas e limites, talvez aí sim pudesse se construir um fio de esperança para a Amazônia.

Sei que este texto pode parecer pró-capitalismo mas, acreditem, não é. Pois desse outro lado, há também uma ideologia de moeda única: o lucro. O lucro individual, financeiro mas sobretudo o do poder e ascendência sobre as instâncias econômicas e políticas que orientam decisões de impacto global. São mecanismos de mobilização bem mais sofisticados do que os dos movimentos citados acima. Daí a importância de documentários com os da Enron e o The Corporation, que nos ajudam a desvendá-los. Mas essa crítica caberá em outro post.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O trem da Vale

Essa apresentação nos mostra o retrato do que é uma viagem na classe econômica no trem da Vale, que faz a linha entre São Luis - MA e Parauapebas-PA, chamando a nossa atenção para as contradições de postura da companhia.

Assista ao video clicando aqui e comente




quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Visitas, viagens e experiênias de Campo: relato e alguma cronologia

Acho que minha pesquisa de campo se iniciou na própria mudança para Belém em 5 de janeiro. Depois de mais de dez anos longe, voltar para a sua terra é sempre um conhecido estranhamento. Reviver e ressentir o clima, os afetos, os lugares, a memória presentificada já é uma experiência e tanto, e só não me perdi nesse labirinto porque a pesquisa me deu um fio de Ariadne.

Como estava com uma boa internet e a Universidade estava fechada por conta dos preparativos para o Forum Social Mundial, iniciei em janeiro o trajeto caseiramente. Busquei via net e via leituras, tudo o que poderia levantar sobre o histórico da Vale - corte diacrônico - e também tudo o que era publicado na grande mídia sobre a cia. - corte sincrônico.

O Forum Social Mundial foi a experiência incrível que já descrevi aqui. O tom anticapitalista dominante do evento me fez olhar o reverso do foco desta pesquisa, e foi muito enriquecedor acompanhar todos os discursos, manifestações e mobilizações contra a Vale, além de identificar as opiniões dos representantes do Poder Público, dos Movimentos Sociais (em especial do Justiça nos Trilhos) e das ONGs em relação a Cia.

Em janeiro e fevereiro a Vale lançou uma grande campanha nacional de publicidade enfatizando seu compromisso com a sustentabilidade, e eu salvei tudo para inserir na pesquisa. Esperava ir em março a Paruapebas mas o excesso de chuvas que se estendeu até junho me fez adiar meus planos.

Em abril, por conta de estar literalmente hibernando na biblioteca do NAEA, decidi criar este blog, de forma que pudesse documentar e compartilhar toda a trajetória da pesquisa.

Em maio, fui a São Paulo participar do II Forum de Comunicação e Sustentabilidade e ao Rio, participar do Intercom Sudeste, importantes congressos da área.

Justifico não ter procurado a Vale nesse período porque tinha decidido primeiro ir a Parauapebas e Carajás, fazer um reconhecimento de campo e escutar as pessoas ainda sem ter ouvido a companhia. E foi o que fiz em fins de junho, ao viajar de carro para a região e ter ali permanecido uma semana. A viagem foi importante para reconhecer o campo, mapear os envolvidos com os projetos de sustentabilidade da Vale, conversar informalmente com moradores e pessoas ligadas direta e indiretamente à companhia, além de me localizar geograficamente em relação ao território a ser estudado.

Entre as visitas, destaco as realizadas à serra e ao núcleo urbano, a comunidade de Palmares II (Assentamento do MST), à Estação ferroviária,a casa do Professor, a SEMED e ao Complexo Esportivo Waldir Sorriso em Parauapebas, além da viagem às cidades de Marabá e Canaã dos Carajás.

Agora estão previstas mais duas viagens, a depender das autorizações obtidas junto a Vale. A próxima deve ser agora em agosto.

Cronologia das Entrevistas

As entrevistas talvez sejam a parte mais substanciosa da pesquisa de campo e, por isso, decidi apresentar uma cronologia delas, identificando os entrevistados e onde foram realizadas.

6/2 – Pedro Galvão: publicitário e proprietário da Galvão Propaganda que atende a conta de publicidade da Vale. Na sede da agência, em Belém-PA;

10/2 – Cristiano Moraes da Silva, ex-terceirizado da Vale, que morou por mais de quatro anos em Parauapebas, em sua casa, em Belém-PA;

19/3 – Angela Naiff – Diretora de Mídia da Galvão Propaganda, na sede da agência em Belém-PA;

26/3 – Lúcio Flávio Pinto: reconhecido jornalista paraense, profundo conhecedor das questões amazônicas, na sua casa em Belém-PA;

(Entre abril e maio houve um hiato nas entrevistas por conta das viagens para participar de eventos em São Paulo e Rio de Janeiro e sobretudo porque as primeiras informações obtidas nas entrevistas me fizeram aprofundar a pesquisa por dados e informações na biblioteca do NAEA)

7/6 - Olinta Cardoso: ex-diretora geral de comunicação da Vale no Brasil e atual consultora da Vale para Sustentabilidade. Encontro e troca de informações básicas para futura entrevista, no Anhembi em SP.

19/6 – André Reis: coordenador do IBRAM – Instituto Brasileiro de Mineração no Pará, por telefone.


(Viagem a Parauapebas)
26/6 – Raimundo Guimarães: segurança da estação ferroviária de Parauapebas, terceirizado da empresa Sacramenta, na própria estação;

29/6 – Raimundo Nonato Mendes: vigilante da Escola Municipal de Palmares II – Crescendo na prática e militante do MST – Movimento Sem Terra, na Escola;

6/7 – Kaio Soares: engenheiro ambiental e ex-terceirizado da Vale em Parauapebas, por email.

30/ 6- Simone Vilhena: coordenadora pela Secretaria Municipal de Educação de Parauapebas (SEMED) do Vale Alfabetizar, juntamente com as colaboradoras Maria Siloé e Kátia Soraya, na sede da SEMED, na sede da SEMED em Parauapebas;

30/6 – Sandra Teixeira: coordenadora pela Secretaria Municipal de Educação de Parauapebas (SEMED) do Escola que Vale, na sede da SEMED em Paruapebas-PA;

1/7 – Maurício Sampaio Junior: professor de educação física e coordenador técnico do Projeto Escolhinha do Futuro, apoiado pelo FUNDICAP (Fundo de defesa da infância e adolescência) que é mantido pela Vale, na sede do projeto coplexo esportivo Waldir Sorriso em Paruapebas-PA;

6/7 – Jônatas dos Santos Andrade: juiz da 1ª. Vara do Trabalho de Parauapebas, na sede da AMATRA, em Belém-PA;

6/7 – José Maria Quadros de Alencar: desembargador da Justiça do Trabalho, 8ª região, no gabinete dele em Belém-PA;

4/8 – Karla Melo: diretora de Comunicação da Vale no Pará, na sede da Vale em Belém-PA.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

As instituições não podem ser maiores do que as pessoas

Há muito tempo venho tendo experiências nada positivas no embate com algumas instituições. E tudo porque ouso questionar algumas frases que me são ditas assim, como se nada fossem: "a culpa é do sistema", "essas são as regras" ou "não é possivel fazer nada porque o sistema não deixa". Ou seja, esse sr. onipresente, o "sistema" é uma construção humana de burocratas e técnicos em informática que são capazes de crueldades aberrantes porque simplesmente "seguem as regras" e esmagam os homens. Estou desde o dia 15 de junho às voltas com o sistema do CNPq, que insistia em simplesmente não abrir o formulário para que eu enviasse o relatório da pesquisa. Depois de 45 dias vivendo um processo kafkiano com a burocracia estatal de Brasilia, entre emails e telefonemas, hoje, finalmente a porta do paraiso abriu e pude vislumbrar um resto de luz no fim do tunel. Resto porque a atendente, embora sempre solícita, foi capaz de me dizer q aquele formulário sempre esteve lá - desde quando??? Por que ninguém me avisou??? sou obrigada a conhecer toda a arquitetura do site do CNPq??? - e eu devia me dar por satisfeita porque justamente hoje, último dia para enviar o fromulário, o sistema se dignou a abrir. Minha alegria durou pouco: logo ao entrar, percebi que os dados de minha bolsa estavam errados, com dados desatualizados e, sobre os quais, eu já havia alertado o CNPq havia mais de 5 meses. Ou seja, se pecado cometi, foi porque alterei as datas de início e término da bolsa. Mas será que alguém no CNPq quer saber porque fiz isso??? Eles querem saber se tenho vínculo empregatício com uma das maiores instituições educacionais deste país, que é a PUC-SP, e que portanto, tenho que obedecer aos trâmites de liberação de licença dela, antes de qualquer decisão psssoal? Pois é, este motivo que ninguém quer saber, acabou gerando niveis de perda de tempo, nervosismo, apreensão e ansiedade que não fizeram nada bem à saúde de alguém que, se cometeu outro pecado, foi o de querer pesquisar em um rincão deste país, onde o poder público chega precariamente. Ali, há muitas formas de pobreza e de injustiça, mas agora, sendo vítima da perversidade sem autoria ou cara das instituições, me pergunto se as populações mais carentes deste país não preferem mesmo a informalidade como forma de escapar a esse controle que subjuga o humano ao nivelar todos por baixo. O apelo anarquista me seduz nesse momento, mas continuo acreditatndo que também não é o caso. A diferença, dentro e fora das instituições, é e será sempre a mesma: o homem. As regras e poderes engendrados pelas instituições são necessários para a organização da sociedade, mas a forma como eles são exercidos é que faz a diferença. Pois se alguém ali no CNPq tivesse tido um mínimo de boa vontde, eu não teria mais um caso a relatar aqui.